Friday, July 21, 2006










Aisha, minha gata de estimação mezzo Siamês, mezzo Persa, fez uma cirurgia de emergência por esses dias. Seus filhotes morrerem ainda na fase de gestação, transformando-se de "futuros gatinhos mimosos" a "quatro pequenas múmias felpudas e de olhos azuis". Sem conseguir nem ao menos abortar, tive que leva-la ás pressas para uma clinica veterinária, para o procedimento cirúrgico que iria retirar os cadáveres de bichos de pelúcia.

Enquanto a levava, pensava nos meus antigos bichos, em como cada um deles fundiu sua existência rápida e serviçal com a minha. Em como, desde a fase de criança, aprendo a lidar com as perdas e com as frustrações. É por isso que dizem ser necessário uma criança cuidar de um animal. É uma simulação viva para aprender sobre amor ao próximo, responsabilidades e até mesmo o ódio.

Apreensivo, aguardei o termino da cirurgia na sala de espera. Havia quadros pintados a mão, onde os temas caninos reinavam. E havia também uma enorme figura do mapa mundi emoldurada, com a representação gráfica de cada pais e seus respectivos cães e gatos de origem. Lembrei-me de Kiko ao ver a Inglaterra com seu famoso cão de caçar lebres, o Beagle.

Kiko era um filhote de Beagle quando chegou na minha casa, lá pelos meus 13 anos. Animal valente, camarada e afetuoso. Nadávamos juntos num lago perto de minha casa e apesar do seu tamanho mediano, era forte o bastante para me levar nas costas nadando. Tinha uma imponência a ponto de se achar o dono da rua. O que lhe valeu duras surras de cachorros de porte gigante. Mas ele sobreviveu a inúmeras brigas e atropelamentos. Por 14 anos viveu em minha casa e dormindo em sua velha poltrona no terraço. E nessa mesma poltrona o encontrei morto, quando cheguei do trabalho numa tarde quente e ele não me respondeu aos assobios habituais. Meus 24 anos vieram abaixo, junto com lágrimas fortes...

Ajoelhado perto do seu corpo, me lembro que disse "Muito obrigado" e repeti isso uma centena de vezes bem próximo a sua orelha grande e fria. Estava profundamente triste, mas agradecido por ter me dado um bocado de alegrias. Principalmente na fase de adolescência, que foi muito dura e solitária. Meu irmão e eu o enterramos no quintal e até hoje ele está lá na casa de minha mãe. Tenho comigo um tufo de pêlos dele guardado num potinho preto de negativos de fotografias. Em algum lugar eu li sobre uma clinica nos EUA que fazem clones de animais de estimação por R$23, 000 a partir de um misero pelinho. Quem sabe eu não tenha dinheiro suficiente para isso um dia...


É justamente disso que trata "Verdadeiros Animais" da americana Hannah Tinti. Ela conta-nos 11 estórias onde homens, mulheres e animais são a mesma coisa. O mesmo universo de sentimentos, ressentimentos e desejos. É uma leitura daquelas com clima estranho e onírico. Um livro onde reside uma beleza sem precedentes de detalhes sórdidos e delicadamente cruéis. Delicadas como feridas abertas por todo o corpo, mergulhado numa banheira de sal grosso. E Hannah consegue como ninguém mostrar até mesmo a violência delicadamente. Consegue tecer palavras que cortam como facas de açougue e nos levam a situações desconcertantes. Tão desconcertantes quanto ver o bizarro abatimento de porcos, galinhas e bois.

Terminei a leitura na recepção, esperando Aisha acordar da anestesia. Fui vê-la assim que acabou tudo. Seu pêlo creme estava meio que molhado de éter. Fez-me lembrar Buster, o cão Labrador do senhor Mitchell, no conto "Lar, doce lar". Sua língua estava para fora. "Lulu", a girava suicida e que tem visões, me vem a mente. "Aisha deve estar tendo sonhos bastante surreais nesse momento", penso comigo mesmo. Mas "o sonho se desmorona" e Aisha acorda. Ela me reconhece e mia fraco. Pago a conta e saio andando com o transportador de gatos na mão esquerda. Ela volta a dormir. E eu a sorrir...





Livro: VERDADEIROS ANIMAIS
Autor: Hannah Tinti
Tradução:Ryta Vinagre
ISBN:85-325-1825-7
Páginas:200
Formato : 14x21
Preço : R$ 31,00

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